Adotar-se

A adoção vem realçar a dimensão do outro na construção de uma relação em que um adota, incorpora, assume, toma para si, legalmente, um outro.

Todavia, muitas vezes nos deparamos com um ser, que deseja adotar, sofrido, despedaçado, desgastado, pelos conflitos advindos do contato com a possibilidade do não gerar, do não adotar.

É no encontro com um outro adotado, seja por uma família, um trabalho, amigos, sonhos, ideais, que este outro despedaçado vislumbra uma possível integração.

Um adotar-se por inteiro, que vai permitir novos encontros, novos caminhos, direções, adoções.

 

 

A ONG Pontes de Amor vem se estruturando cada dia mais, unindo esforços com profissionais de diversas áreas, primando por um trabalho de excelência, para ser este outro adotado, que vai lançar as bases fundamentais para que muitas adoções se efetivem de forma inteira, consistente e duradoura.

 

Adotar-se para adotar.

 

                                      Karollyne Sousa

Psicóloga Voluntária da ONG Pontes de Amor

Mestre em Psicologia Aplicada  com enfoque na área de acolhimento institucional

 

A verdade é o princípio da adoção

 

Em seu artigo “Uma psicologia da adoção”, Schettini diz que a criança adotada necessita do conhecimento de sua origem. “Dizer a verdade tem sido um desconforto, quando não um motivo de pânico, para alguns pais. É como se a histórica revelada pudesse destruir o afeto familiar. Porém, as dificuldades nas relações interpessoais poderão surgir muito mais pela manutenção dos segredos do que pela revelação da verdade”, garante Schettini, que é especialista em psicoterapia de crianças e adolescentes e o maior escritor do assunto no Brasil.

Esposa e parceira de Luiz em pesquisas, além de presidente do Grupo Estudo e Apoio à Adoção (Gead), no Recife, a psicóloga Suzana Schettini acrescenta que a criança precisa tomar conhecimento de sua realidade mais ou menos aos 2 anos, com palavras simples e de uma forma que ela possa entender. “Na verdade, os pais irão apenas confirmar o que, inconscientemente, a criança já sabe. Ela tem percepções e inscrições psicológicas da vida intrauterina e da transposição para a família adotiva. Tanto que, atualmente, não se fala mais em ‘revelar’ a história mas, sim, comunicar. Isso não deve angustiar os pais”, pontua Suzana. De acordo com a psicóloga, eles são as pessoas que devem fazer esta comunicação, para evitar que a criança tome conhecimento de forma inadequada, através de terceiros.

Meninos e meninas terão um entendimento mais claro de sua adoção a partir dos 6 ou 7 anos e a reação deles ao fato vai depender de como lhes foi passada a sua realidade. “A criança aprende o mundo da forma como os adultos ensinam. Se estes se sentem seguros e confiantes na sua condição de pais, assim a criança também se sentirá.

É o que acontece com a fonoaudióloga Auriany Nunes e o motorista Gustavo Souza Leão, que hoje esperam seu primeiro filho biológico, mas, primeiro, adotaram Arthur, de 4 anos, quando ele era um bebê de 3 meses. “A chegada dele só nos trouxe alegria e por isso esclarecemos os fatos naturalmente. Sobre a sua vida, não queremos deixar lacunas”.

Fundadora do Geadip, grupo de apoio à adoção, em Belo Jardim, no Agreste, Tatiana Valério tem duas meninas: Maria Júlia, 6, e Maria Alice, 4. Ela e o seu marido, o autônomo Marcos Valério, sempre procuraram a forma mais leve de falar com elas sobre o assunto. “A mais velha já entende, mas eu digo à mais nova: mamãe e papai queriam muito outra filha. Um dia, o telefone tocou e era a juíza perguntando: ‘é da casa de Marcos e Tatiana? Tem uma menina aqui esperando vocês’. E nós fomos correndo buscar você!”, conta Tatiana, que sempre põe a sinceridade em primeiro lugar. “Ela está na fase de dizer que saiu da minha barriga, mas sou firme: não, filha; os pais podem ter os filhos ou adotá-los e nós adotamos você!”.

Suzana Schettini resume bem toda essa questão: “A adoção é apenas uma outra forma de se chegar à família. Na verdade, todas as crianças precisam ser adotadas para se tornarem filhos, porque a filiação somente acontece através dos vínculos afetivos, ou seja, pela adoção. Assim sendo, todos os filhos precisam ser adotivos, mesmo os biológicos, ou não serão filhos de fato. Os pais que não adotam as suas crianças afetivamente, são apenas genitores”.

Myllena Valença

 

Ser honesto com os filhos sobre todo o processo é a melhor maneira de evitar desententimentos

“O filho é a resultante esperada da relação homem-mulher; é como se o equilíbrio se completasse a partir de um terceiro referencial. É da interação dessas três forças (ou mais) que surge a verdadeira unidade”. O sentido da afirmação do psicólogo Luiz Schettini Filho é o ponto de partida para que muitos casais optem por adotar uma criança quando, por algum motivo, não podem gerá-las. Mas apesar de toda a grandiosidade e beleza da adoção, existe uma fase delicada, pela qual todos irão passar: a hora de contar à criança a verdade sobre sua origem. É preciso maturidade para que este momento seja encarado pela família com total naturalidade, evitando traumas aos pequenos.

Pais e Amor

                            A fantasia é  um direito e uma necessidade que nos introduz na realidade. Elaboramos nossas fantasias a respeito dos filhos, criando sempre expectativas boas aos nossos olhos. Tudo perfeitamente lícito. Não temos, entretanto, o direito de atingir sua individualidade para atender aos nossos sonhos. É-nos permitido tentar um esboço de como gostaríamos que fossem os filhos, mas não nos é dada a oportunidade de realizar a arte-final. A configuração dos contornos e das marcas distintivas da sua vida, só a eles é permitido estabelecer. Resta-nos caminhar com eles para apreciar ou sofrer juntos pelo amor que lhes dedicamos.

                            Somos instados pelas circunstâncias a nos empenhar em fazer acertos na vida deles, mas, nem sempre tomamos as precauções para que não resultem em “desacertos”. Quando eles não se enquadram nos critérios e padrões que desejamos, em geral, achamos ter-se instalado uma patologia, razão por que insistimos em tomar providências para que eles fiquem “bons” do mal que os acometeu. Com certeza, não seria o caso de eles ficarem “bons”, mas de ficarem bem.                           

                                        Quem ama não anula ou descaracteriza o seu amado sob o pretexto de estar fazendo o melhor para ele. A imposição do bem traz um mal, porque aniquila um bem fundamental: a liberdade. Isso não quer dizer que abandonemos os filhos à própria sorte, o que seria crueldade, pois eles carecem de um referencial claro, definido e estimulador para a vida. Quem melhor do que os pais para servir de orientadores do descobrimento da vida?

                                A grande questão é que não basta que reproduzamos os princípios e os critérios sem os apresentarmos de uma forma viva e dinâmica, isto é sem que sejam percebidos através do nosso exemplo. Mas, apenas o exemplo não é o suficiente; é preciso que os filhos sintam o amor que temos por eles quando lhes sugerimos uma trajetória de vida. Perceber e sentir são ações indispensáveis para que possam apreender os valores a eles expostos e que servirão como sugestão para que elaborem sua forma pessoal de viver. Sem amor, dificilmente conseguiremos disposição nos filhos para considerar com seriedade as metas que lhes oferecemos.

                            É na relação entre mãe e filho que vemos a dimensão da ligação afetiva que se estabelecerá durante a vida toda. De início, há uma troca desigual, porque a mãe é a que dá quase tudo, enquanto o filho é o que recebe sem dar quase nada. Nessa forma aparentemente descompensada de relação afetiva está, no entanto, a preparação para a visão abrangente do sentido do amor para a vida humana. Dessa  convivência afetiva muito dependerá a maneira pela qual o filho, como adulto, compartilhará seus afetos com as outras pessoas. Se à criança, durante a primeira infância, for negado o que o amor da mãe pode lhe oferecer, ficará desguarnecida de um recurso fundamental para sua realização como pessoa. Poderemos incluir nessa fase, também, a figura do pai, que vem completar o espectro de referenciais para que o filho seja iniciado no processo de amar a si e as outras pessoas para que sua vida seja plena de sentido. Pais que se eximem de manifestar amor aos filhos, seja sob que pretexto for, estão lançando no caminho deles obstáculos que, para alguns, poderão ser instransponíveis.

                            É comum encontrarmos pais que, diante da distorção do comportamento dos filhos, adolescentes ou adultos, perguntam: “Onde foi que eu errei?” referindo-se a ações e metodologias que, porventura, tivessem sido inadequadas. Não se lembram que, antes de todas as formas de ensinamento, vem a manifestação de afeto. Daí para adiante, os métodos, as técnicas e tudo o mais que possamos aprender para ajudar os filhos será útil para promover o crescimento pessoal.

                            Não negamos que o filho precisa dos pais; o que esquecemos, quase sempre, é que, antes de tudo, os pais é que precisam do filho. Precisam dele para amá-lo. Nunca seremos completos sem amar alguém. O amor é um atributo humano que não pode ser contido nos limites da individualidade, sob pena de se transformar em amargura e sentimento de impotência. Quanto mais amamos, mais nos sentimos humanos. É porque precisamos do filho para amá-lo, que ele descobre que precisa de nós para nos amar.

                            Quando falamos de amor aos filhos, sobretudo, na primeira infância, não damos ênfase ao aspecto subjetivo do amor, pelo contrário, nos referimos às formas concretas e objetivas, que estão ao alcance da compreensão deles. Isso quer dizer que é sumamente importante que o amor seja traduzido em carinho, aconchego, presença e proteção física.

                            O aconchego corporal é insubstituível. O que transmite o que nenhuma palavra pode comunicar. Acarinhar, beijar, aconchegar ao colo infundem segurança e produzem tranqüilidade. Não se trata, entretanto, de uma aproximação corporal formal. Abraçar, por exemplo, não é segurar. É muito mais; é uma ação de afirmação da disponibilidade de estar junto para enfrentar qualquer situação: é uma forma de expressar semelhança e, portanto, capacidade de compreender. Quando duas pessoas se abraçam é como se uma se visse refletida na outra, da mesma maneira como se cada uma se visse refletida num espelho. Abraçar é dividir o calor que se tem.

                            Se não nos tocamos corporalmente seremos como estranhos, porque nos faltará o sentido concreto da textura física peculiar do outro. Para a criança, essa é uma forma básica de conhecimento. Não é sem propósito que um dos meios mais primitivos de que o recém-nascido dispõe para conhecer e, posteriormente, reconhecer sua mãe, é sentir a textura de sua pele.

                            Vale ressaltar que o contato corporal em forma de carícia tem sua importância, porém, precisa ser acompanhado da palavra. É indispensável falar ao filho, pois a palavra dá dimensão à carícia. Assim, pais que acariciam e falam com seus filhos vão, ao longo do tempo, aperfeiçoando sua forma pessoal de exprimir o amor que têm por eles.

                            Os adultos têm, hoje, uma tarefa gigantesca, que é desempenhar suas obrigações pedagógicas com a geração pela qual são responsáveis.  A família é o território no qual existe a melhor possibilidade de preparação para a vida, porque dá a cada um oportunidade de vivenciar experiências boas e desagradáveis e encontrar a forma individual de resolvê-las.  Se os mais experientes e amadurecidos do grupo familiar expressarem seu amor, sem dúvida, todos serão beneficiados.  Se não vivermos uma relação de amor com nossos filhos estaremos sendo injustos com eles; eles vieram como resultado de um desejo ou por nossa aprovação. Amar e expressar amor aos filhos é um ato de justiça.


Luiz Schettini Filho é teólogo, filósofo e psicólogo clínico. 

OUVIR O SILÊNCIO, UM ATO DE AMOR

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) propõe que Instituições de Acolhimento sejam casas de passagem para crianças e adolescentes, que viveram alguma situação de risco. Contudo, infelizmente, essas instituições são lugares em que algumas dessas crianças e adolescentes passam vários anos de suas vidas.

Embora a proposta de acolhimento seja para proteção dessas crianças e adolescentes, elas quando em uma instituição sentem um forte abandono. Elas são silenciadas por seus sofrimentos, as palavras não saem como antes, a dor é guardada dentro delas como se fosse a única coisa que lhes restassem de sua história. Apesar das palavras não serem ditas, suas atitudes gritam anunciando seus conflitos e dores, e podem nos dizer muito através de seus gestos sobre suas necessidades de amor e cuidado.

Crianças e adolescentes que estão acolhidas não precisam de sentimentos de dó e piedade, precisam de amor e compreensão. Elas querem que ouçamos o que dizem através de seus abraços e beijos, de um olhar profundo, de um toque.

 

                     Essas crianças e adolescentes também falam no silêncio de suas transgressões, em suas atitudes que vão contra os padrões de “bom comportamento” e “educação”. Em suas formas agressivas de expressão pedem para serem limitadas, em seu silêncio gritam para serem contidas com amor.

                          Esses pequenos precisam de um novo modo de viver, merecem que suas realidades sejam transformadas por atos de amor. É possível ouvir o que o silêncio nos diz, e mais, é possível responder o silêncio com atitudes! Através de um toque, essas crianças e adolescentes acolhidos podem sentir uma troca de carinho, respeito e integridade.

                       A manifestação verdadeira de afeto muda a maneira dessas crianças e adolescentes se relacionarem com o mundo, sentirem um verdadeiro acolhimento, e possibilitando uma nova forma de lidarem com suas histórias e sonharem um presente e futuro diferentes do que foi até agora.

 

“Pior do que a voz que cala,

é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!”

(A Voz Do Silêncio – Martha Medeiros)

 

Por Bruna Romero

Psicóloga da ONG Pontes de Amor